14 de ago de 2013

Ghost, a banda macabra que vai ganhando o mundo....

Uma música de tons macabros começa a tocar. Depois de alguns momentos entram cinco seres mascarados, vestidos de preto que lentamente, em ritmo quase fúnebre, assumem os instrumentos; os “Nameless Ghouls” (espectros ou bestas sem nome). O peso da música aumenta, e entra uma figura icônica, vestido como o sumo pontífice da ICAR. No entanto, as cores imediatamente se destacam. Novamente vê-se o preto, agora com tons de vermelho. Outro ponto que se destaca são as cruzes invertidas, tanto na mitra quanto nas vestes. Ao olhar para o rosto vemos que realmente  essa figura em nada se assemelha ao Vigário da Igreja Católica, apesar de carregar seu nome: Papa Emeritus (II). Ou seja, os incautos certamente se assustam com a aparencia da bizarra banda de Heavy Metal: Ghost



Ghost (ou Ghost B.C. nos Estados Unidos) é uma banda sueca formada em 2008, na cidade de Linkoping. Sua discografia é composta até o momento de uma demo, 3 EP's e dois álbuns de estúdio. Tanto a demo quanto o primeiro EP foram lançados em 2008. O primeiro lançamento possui três faixas: Ritual, Prime Mover e Death Knell, o EP, chamado Elizabeth, contém as mesmas faixas da demo mais a faixa título, que trata da conhecida história da condessa Elizabeth Bathory, que se banhava em sangue de virgens para conservar a juventude.

Em 2010 a banda lança Opus Eponymous , contendo 9 músicas e aclamado pela mídia especializada como um dos melhores lançamentos do ano. O estilo da banda remete a um hard rock/ heavy metal clássico, fortemente calcado no final da década de 70, remetendo a uma mistura de Mercyful Fate, Blue Oyster Cult e Pentagram. As letras da banda são fortemente satanistas, o que contrasta com a sensibilidade pop e os vocais limpos que permeiam todo o disco. Os teclados vintage e a produção muito limpa, sem exageros de compressão, fazem o disco soar inteiramente analógico e também remetem à década de 70 conferindo uma atmosfera que prende o ouvinte. Con Clavi Con Dio, Ritual, Death Knell, Elizabeth e Prime Mover são os destaques do álbum.

Em fevereiro, a banda lançou seu segundo EP, nomeado "Secular Haze", contendo 2 músicas: a própria Secular Haze, e I'm a Marionette, que é um cover da banda sueca ABBA com participação de Dave Grohl, atualmente do Foo Fighters, na bateria. Em 16 de abril de 2013 a banda lançou seu segundo álbum intitulado Infestissumam. Pouco depois do lançamento de Infestissumam, a banda lançou seu terceiro e ultimo EP, nomeado "Year Zero", contendo também 2 musicas: Year Zero, e Orez Raey, que seria a Year Zero do final ao começo.

As apresentações do sexteto trazem uma atmosfera cênica inspirada em rituais satânicos e filmes de terror clássicos, com todos os membros caracterizados como sacerdotes em uma missa negra. O vocalista adentra o palco vestido como um pontíficie e carregando um turíbulo utilizado nas litanias católicas.
(http://pt.wikipedia.org/wiki/Ghost_(banda))

Aqui tem um exemplo de uma de sua letras macabras traduzidas:

Relógio Ostensório (Monstrance Clock)

Ao som do relógio ostensório
Aqui o rebanho agregado é purificado
Hoje velas pretas queimam a noite inteira
Ao som do relógio ostensório
Aqui o rebanho agregado é purificado
Velas pretas queimam no meu altar
À medida que a paróquia emite fumaça
E te guia para a revelação
Ao som assombrado do relógio ostensório

Cantando:
Venham juntos, juntos como um só
Venham juntos pelo filho de lúcifer

Ao som do fim do dia
Hipnotizado o agregado oscila
Velas pretas queimam no meu altar

Hipnotizantes senhores do reino
Pentagrama paralisante
E o misterioso som do relógio ostensório

Cantando
Venham juntos, juntos como um só
Venham juntos pelo filho de lúcifer (x8)

Mas porque gastaria esse espaço todo no blog para falar de uma banda tão macabra?

Porque eles são um dos maiores fenômenos no rock/metal atual. Como já citei antes, a mídia especializada os amou, mas, muito mais importante, desde o lançamento de seus primeiros trabalhos são um verdadeiro fenômeno da cena underground que os adorou. Cresceram tanto que são uma das atrações do Rock in Rio (são a primeira banda sueca a tocar no renomado festival), no mês que vem, e tem shows marcados em diversas cidades brasileiras depois do grande festival. 

Grandes expoentes do Metal como James Hetfield (Metallica) e Phil Anselmo (Pantera) já declararam sua admiração pelo grupo sueco, e Dave Grohl (ex-Nirvana, ex-Queens of the Stone Age e vocalista do Foo Fighters) chegou a tocar bateria com eles.  Ou seja, se você não os conhecesse aqui hoje, em breve os conheceria em outro lugar.

Desde os seus primórdios, o Heavy Metal tem sido conectado com o oculto (muitas vezes pelos de fora). Vemos isso explicitamente em bandas como Black Sabbath e Judas Priest que são dois dos maiores expoentes do estilo em todos os tempos (aliás, o Black Sabbath também estará no Brasil em breve, com boa parte da formação original). Essas bandas, no entanto, o  faziam de forma razoavelmente comportada, e não passava muito do nome da banda e um estilo mais dark e um som mais pesado do que então se conhecia.

Mais  tarde surgem outros fenômenos, como, por exemplo o Iron Maiden  que, por causa de seu mascote Eddie, foi muitas vezes colocado na categoria de satânico. Mais tarde, surgem mais bandas que, essas sim, começam a adotar um suposto satanismo em suas letras, declarações, aparência e som. Podemos lembrar de alguns trabalhos do Slayer, o começo do Black Metal com Venom, e depois o Black Metal noruegues, com bandas como Mayhem e Burzum, e o famoso  caso das igejas queimadas, suicídio e assassinato. Mas o que é que todas essas bandas tem em comum? Todas, em seu tempo, eram considerados o mais extremo que havia em termos de som. Eram bandas agressivas tanto no som como na aparência e nas letras.

O Ghost, ao contrário das bandas anteriores, definitivamente não é Metal Extremo no seu  som, que, além de muito bem elaborado, é leve e muito agradável em muitos momentos. Ou seja, se poucas pessoas pegariam um albúm de Black Metal para ouvir, o som do Ghost é acessível a quase todos. Além de que o vocal limpo (ao contrários dos guturais do Black Metal) não deixa qualquer dúvida quanto ao conteúdo de suas letras blasfemas. Como um crítico o colocou, apesar de que houve muitos outros antes deles que carragassem o oculto, o estilo musical afastava a maioria. O Ghost abriu uma nova categoria.

Aqui, no entanto, devo abrir um grande parêntesis. Eu sou da opinião de que a maior parte do satanismo no metal é pose, e não creio que a maior parte deles faça qualquer coisa considerada satânica fora do palco. Em geral o Satanismo é uma questão muito mais filosófica que religiosa. É fato que o oculto atrai, mesmo que seja atenção negativa (o famoso: fale mal de mim mas fale de mim). E desde os primeiros grandes expoentes esse foi um dos maiores motivos do uso desses elementos (sei que devem haver exceções, mas são raros os casos).  Lendo a respeito do Ghost me parece que mais uma vez esse é o caso. Em entrevista, um dos Ghouls disse que são uma banda teatral, fãs de filmes de terror. Em outra entrevista, um Ghoul diz que o Ghost é um trabalho de criar uma obra de arte com uma estética que reflita valores anti-cristãos, e que por isso adotam o satanismo, de acordo com ele, bíblico. Mas, ao mesmo tempo, ele diz que para ele pessoalmente é zombaria para com a religião por ser um forma simplista de se ver a divindade. Além disso, ainda teriam dito que o  objetivo deles não é inverter a igrjea, mas desenhar um bigode (como se faz com o santinho do político).
Ou seja, a banda quer, de certa forma, ofender, ou, como Nietzsche diria, querem a transvaloração dos valores da sociedade. Como esses valores são, em sua maioria, herança da tradição cristã, o que o Ghost ( e muitas outras bandas do estilo) faz é ofender o Cristianismo em todas as suas expressões de arte.

Ou seja, o objetivo não é que você se converta ao satanismo, mas que o ouvinte reflita a respeito dos seus próprios valores e caminhos, além de ser um grande protesto para aqueles que cresceram em lares supostamente cristãos mas que por toda a vida viram que muitos (seus pais ou membros da igreja) o vivem de forma hipócrita e que isso os afastou da igreja.

É interessante que numa entrevista à Globo a respeito do Rock in Rio, o guitarrista do Slayer. Kerry King, diz a respeito das letras macabras no começo da carreira da banda: “Aquilo era mais quando estávamos tentando nos estabelecer como uma banda sombria. Nossa evolução foi perceber que, na verdade, nosso assunto não era o diabo. Ora, afinal, eu sou ateu! Nossas letras falam de fato é que as pessoas devem pensar por si mesmas, e não simplesmente aceitar tudo em que os outros dizem que se deve acreditar.” O mesmo é provavelmente verdade para o Ghost.

Bom, de qualquer forma, meu objetivo aqui não é defender a banda, nem que quem leia esse texto se torne fã da banda (nem eu sou, apesar de musicalmente me agradarem, as letras passam muito do que seriam os meus limites), mas mostrar que a) essa banda provavelmente vai estourar e se tornar muito famosa; e b) não podemos analisar a banda de forma simplista simplesmente julgá-la como demoniaca, ou algo do tipo. Ou seja, se agora alguém te perguntar a respeito, ou algum desavisado vê-los mês que vem no Rock in Rio, pelo menos você saberá do que se trata.   

Reunião Com Deus (Con Clavi con Dio)

Lucifer
Nós estamos aqui
Para seu louvor
Maligno

Nossa conjuração canta salmos infernais
E se besunta de manchas em (palmas de) mãos sangrentas

Estamos reunidos
Estamos com Deus
Estamos Com o Nosso "Deus Escuro"

Semideus
Nossa tarefa
Por trás da máscara
Os Escolhidos

Oh, chefe rebelde, destruidor da terra
Se eleva do precipício desde o início

Satanás
Somos um
De três
Trindade

Estamos reunidos
Estamos com Deus
Estamos Com Nosso "Deus Escuro"


Leia mais a respeito da banda:

http://oglobo.globo.com/cultura/slayer-ghost-rock-in-rio-ganha-reforcos-do-lado-sombrio-7077613

4 comentários:

  1. Gostei do post...porém amado irmão, não considero o uso da estética que eles optaram como neutra.
    O Capeta, satanás, capiroto, ou seja qual for o nome, manipula e guia os filhos da perdição.
    Por mais que neguem, num trabalho supostamente de critica ao cristianismo "direitista", o diabo infunde na mente do povo uma mensagem anti-Deus, seja esta mensagem de cunho religioso, artistico ou filosófico.
    Tamo junto...gostei do blog.

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  2. Olá Bruno, obrigado pelo comentário! De forma alguma eu diria que eles são neutros. Digo que provavelmente eles não são satanistas, assim como entendo que a maioria das bandas não o são. Agora, querendo eles ou não, certamente a música deles é um louvor "do outro lado" e não dá pra ser aproveitado, apesar do som incrível que fazem. A letra é perversa demais para a possibilidade do diálogo. No entanto, se alguém se propor a fazer uma banda, com esse estilo musical mas letras mais decentes, serei fã!

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  3. Excelente post, com um altíssimo nível de imparcialidade, considerando que vem de um cristão reformado. Parabéns!
    Sou fã da banda, mas mais pela sonoridade das músicas, e, parafraseando o autor do blog, pelo prazer de "desenhar um bigode" na igreja, como se faz com os santinhos de um político.

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"Todo aquele que ler estas explanações, quando tiver certeza do que afirmo, caminhe lado a lado comigo; quando duvidar como eu, investigue comigo; quando reconhecer que foi seu o erro, venha ter comigo; se o erro for meu, chame minha atenção. Assim haveremos de palmilhar juntos o caminho da caridade em direção àquele de quem está dito: Buscai sempre a Sua face."

Agostinho de Hipona